quarta-feira, 21 de abril de 2010

Corpo


Educador: Natanael Steffen
Foto:E.I.E.F.FEN'NÓ
Noções de Corpo
Muito se tem discutido sobre a questão do corpo na sociedade atual, para isto se tem sempre um pano de fundo no cenário que são as concepções de corpo, desde tendências filosóficas até o corpo antropológico.
Segundo Aranha e Martins (1986, p. 345), na concepção idealista o homem sempre teve dificuldade em ver claramente e sem preconceitos seu próprio corpo. De maneira geral, sempre houve uma tendência entre os filósofos em explicar o homem não como uma unidade integral, mas como um composto de duas partes diferentes: um corpo (material) e uma alma (espiritual e consciente). Chamamos a isso dualismo psicofísico, ou seja, a dupla realidade da consciência separada do corpo.
No renascimento e idade moderna, o corpo passa a ser objeto de ciência. A filosofia cartesiana contribuiu para a nova abordagem a respeito do corpo.
Descartes, partindo da dúvida metódica, duvida da realidade do mundo e do próprio corpo, até chegar á primeira verdade indubitável, qual seja o cogito, o pensamento. Ao recuperar a realidade do mundo e do corpo, encontra um corpo que é pura exterioridade, considera então que o homem é constituído por duas substâncias distintas: a substância pensante, de natureza espiritual – o pensamento; e a substância extensa, de natureza material – o corpo. Este posicionamento determina uma nova visão do corpo: o corpo objeto, associado à idéia mecanicista do homem-máquina. Descartes afirma: “Deus fabricou nosso corpo como máquina para que funcionasse como instrumento universal, operando sempre da mesma maneira segundo suas própria leis”. (Descartes, apud, ARANHA & MARTINS p.345).
O materialismo por sua vez, “naturaliza” o corpo e suas funções, o que significa, em última instância, que o corpo físico já não é corpo vivente, persistindo a idéia de corpo como coisa submetida às leis da natureza. O próprio homem, reduzido à dimensão
corpórea, acha-se sujeito às forças deterministas da natureza que o tornam incapaz e irresponsável pelo próprio destino.
Já a fenomenologia tenta superar, pela noção de intencionalidade, a dicotomia corpo-espírito, sendo que o corpo, nessa perspectiva, não se identifica às “coisas”, mas é enriquecido pela noção de que o homem é ser-no-mundo. “Se o corpo não é coisa, nem obstáculo, mas é parte integrante da totalidade do ser humano, meu corpo não é alguma coisa que eu tenho, mas eu sou meu corpo”.
Para Geertz,
O corpo representa uma indissociabilidade entre natureza e cultura. Se, por um lado, existe um patrimônio biológico universal, que torna todos os humanos membros de uma espécie, por outro, há construções corporais diferentes entre as sociedades.
Assim, o mesmo corpo que torna o homem igual, também o torna diferente, e não há nessa afirmação nenhum paradoxo. A conclusão é que a definição de corpo não depende de suas características biológicas, mas de sua especificidade cultural. Portanto, atuar no corpo implica sempre atuar sobre valores, crenças, normas e princípios da sociedade na qual este corpo está inserido. (Geertz, apud CARVALHO, 2001, p. 32).
Nesta compreensão da oposição entre consciência e corpo, somos sempre levados a pensar o homem dualisticamente. A psique ou a alma, a consciência ou a mente usa o corpo como veículo que conduz à perfeição, mas que pode dificultar o bom andamento quando ele não obedece aos ditames espirituais. Esta antropologia está claramente exposta na alegoria da parelha alada de Platão, na ascese cristã e na “mens sana in corpore sano” dos romanos, sendo que aqui, o exercício físico encontra espaço como agente controlador e disciplinador das possíveis revoltas do corpo contra o espírito, ou de sua indolência na execução das tarefas a serviço do bem.
O pensamento antropológico contemporâneo, segundo Rodrigues (1975, p.46) pretende entender a natureza da sociedade humana como sendo basicamente a de um sistema de significação, mesmo assumindo um caráter “natural” e “universal”, a mais simples observação em torno de nós poderá demonstrar que o corpo humano como sistema biológico é afetado pela religião, pela ocupação, pelo grupo familiar, pela classe e outros intervenientes sociais e culturais, e ainda concebe relações entre os astros, as estações, as coisas, os animais e os deuses; reconhecemos no nosso corpo e no das pessoas que conosco se relacionam, um dos diversos indicadores da nossa posição social e o manipulamos cuidadosamente em função desse atributo.
Podemos observar no nosso próprio dia-a-dia, o corpo se tornando cada vez mais carregado de conotações: liberado física e sexualmente na publicidade, na moda, filmes, romances, higiene, obsessão de juventude, elegância e cuidados.
Ao corpo se aplicam, portanto, crenças e sentimentos que estão na base de nossa vida social e que ao mesmo tempo, não estão subordinados diretamente ao corpo. A atividade expressiva é um modo de dizer ou expressar alguma coisa, uma idéia ou estado espiritual; é uma atividade simbólica, à qual convém sempre indagar o que está sendo dito ou o que significa, tudo o que for expressivo no corpo é objeto de estudo sociológico. (...) estudar a apropriação social do corpo é estrategicamente importante para os cientistas sociais, uma vez que ele é, sem dúvida, o mais natural, o mais concreto, o primeiro e o mais normal patrimônio que o homem possui. (Ibidem)

Um comentário:

  1. Muito bom ler isto Nata!
    Acredito que somos o que somos: nem só corpo, nem só consciência, nem um ser dualista, que possui um corpo e uma mente em constantes discussões do que seria certo ou errado fazer.
    Somos seres que pensam e agem, têm reações físicas, químicas e psicológicas complexas, influenciadas pelo que acreditamos que somos ou que deveríamos ser. A busca pela felicidade deveria passar pela busca do entendimento dessas reações, a aceitação dessas, para que possamos saber como lidar com elas.
    Considerando que a leitura do mundo é diferente a cada um de nós (já que nossas experiências sao diferentes), então, não há um padrão aqui também, como acredito não haver em muitos outros aspectos, para definir qual será a melhor forma de entendê-las. Cada um encontrará suas resposta conforme alcança o auto-conhecimento (o que inclui conhecimento da história, da cultura, de biologia...entre tantos).
    O importante é não julgar precipitadamente; observar, pesquisar, experimentar. Cuidar de si mesmo é importante para qualquer dessas teorias, incluindo a religiosa...

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