segunda-feira, 27 de maio de 2013



Nosso corpo, nossa história
Texto escrito por  Valéria Prado.

Tudo que afeta nossa psique produz um efeito sobre nosso corpo. Quando sentimos medo, por exemplo, nosso corpo sofre uma série de reações - nossos batimentos cardíacos se aceleram, nossos olhos se arregalam e nossos músculos se contraem numa reação de fuga ou ataque.
Emoções diferentes provocam reações diversas, mas cada uma produz um efeito em nosso corpo. Quando somos submetidos continuamente a uma emoção, especialmente durante a primeira infância, estas reações físicas - que normalmente são momentâneas - cristalizam-se, formando tensões crônicas nas regiões envolvidas. Os mais envolvidos neste processo são os músculos e os condutores de energia, que na terapia chinesa são chamados meridianos.
         Portanto, podemos ver que nosso corpo traduz a memória de nossas emoções e dos mecanismos que criamos para contê-las, reprimi-las. Ao reprimirmos o "inconveniente" nos tornamos também insensíveis às emoções agradáveis, prazerosas - amizade, amor... Ficamos mais densos, pesados, perdemos a capacidade de admirar o belo; já não conseguimos curtir as pequenas delícias da vida, temos dificuldade em compartilhar afeto, mesmo com aqueles a quem mais amamos. Sentimo-nos vazios e por mais que busquemos a felicidade fora de nós, ela nos escapa.
        Nas últimas décadas, técnicas ocidentais e orientais vêm se difundindo com o objetivo de trabalhar a consciência de nosso corpo, liberando as tensões através de uma atitude de compreensão da relação corpo-mente. Entre estas técnicas adotamos a massagem, aliada a posturas de Hatha Yoga e alongamentos para criar internamente um estado de autoconhecimento, um espaço de paz e auto-aceitação.
O toque
        Olhei pela janela, acima da minha cabeça vi a lua, calma, branca, cheia. Uma nuvem veio e devagar cobriu parte dessa calma, mas continuou empurrada pelo vento e a lua voltou a aparecer inteira.
       Lembrei da animação que vi, no computador, de uma eclipse. Bonito, interessante. Mas faltou a sensação, o ar da noite, essa visão da lua presente, como se eu pudesse conversar com ela, ali acima de mim, aqui e agora. Essa percepção de que o tempo passa, e que o tempo da lua é sempre o mesmo, diferente dos nossos tempos aqui na terra.
       A vida do corpo não é virtual, pensei, como a lua lá no céu não é a lua da animação da eclipse. A lua lá em cima toca meu corpo através do ar da noite, da temperatura da brisa, da visão das nuvens passando entre mim e ela, dessas nuvens que percebo em três dimensões pelo seu movimento.
A vida toca meu corpo a cada momento, e se meu corpo está amortecido não percebe o toque, não percebe a vida.
       Assim é a massagem. O corpo está ali, conosco todo dia todos os dias, mas não olhamos para ele. Não o sentimos. Não nos admiramos da sua beleza, seja de lua nova, cheia ou minguante. Até que uma mágica faz a gente parar e perceber as nuvens, o vento, a luz da lua. Até que uma magia faz a gente perceber a textura, a sensação, a elasticidade, e a colaboração, a resistência, a paciência, a irritação, a paz, a ansiedade, a doçura que sempre estiveram no nosso corpo. Ali, esperando para serem notadas. Esperando serem tocadas.


Massagem: o que é?
       Entrei na sala semiobscura, encontrei um homem enorme, sério. Eu tinha marcado hora pelo  telefone, foi indicação do meu terapeuta. “Você precisa de uma abordagem corporal, verbalmente vai ficar sempre enrolando”. Foi mais ou menos o que ele disse. Mas, naquela hora eu não sabia o que fazer.“Tira a roupa”, ele disse.“C-como?” “Tira a roupa e deita”.Bom, os dados estão lançados.Do resto não lembro. Eu nunca tinha recebido uma massagem antes.
      Lembro, sim, dos meses seguintes, quando fui descobrindo que meu corpo tinha muito mais pedaços do que eu pensava. E vendo que cada pedaço tinha uma história pra contar. Que às vezes a história de um era diferente da do outro. E me sentindo às vezes velha, às vezes criança, às vezes forte e até masculina, outra doce e meiga... Conforme a história que meu corpo contava.
      Dessas sessões individuais saíram grupos onde nós aprendemos e praticamos a massagem e a compreensão humana que vem com ela. Foram anos de trabalho e convivência.
Até hoje, muitos anos depois, o encontro entre duas pessoas de um mesmo grupo é diferente do habitual, mesmo se não nos vemos há longo tempo. O conhecimento que a gente tem um do outro se baseia na experiência do ser de ambos, não poderia ter sido adquirido pelas práticas intelectuais ou afetivas do cotidiano urbano. E não se perde com o tempo. É um conhecimento profundo.
      Tudo está no corpo. O toque traz à tona toda a verdade, toda a história pessoal e a nossa interpretação atual dessa história.
Massagem: amassar, tocar profundamente os tecidos do outro. Tocar a vida que está nesses tecidos, que os interliga e mantém, nessa forma individual única. Vida pessoal materializada, e fonte da energia que se transforma em atos, dia a dia.
Toque que traz consciência, conhecimento de si mesmo. E para que mais vivemos senão para conhecer a nós mesmos?

 Referencia Bibliografia.
     Para Ensinar Educação Física: Possibilidades de intervenção na Escola, Suraya Cristina Dario e Osmar Moreira de Souza Júnior. Paginas 249 – 250 e 251.

Discussão

·         Alguém já recebeu uma massagem? De que tipo?
·         Vocês acham que existe algum tipo de receio em relação ao toque em nossa sociedade?
·         Por quais motivos existe uma certa resistência em relação ao toque?
·         Vocês se sentem bem ao serem tocados pelos colegas?
·         Em que circunstâncias vocês se sentem incomodados com o toque de algum colega?



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