quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O poder do voto evangélico: fatos e versões


Pesquisa Datafolha mostra intenções de voto para× Presidente por religião
A pesquisa mais recente publicada pelo Datafolha sobre as intenções de voto para a Presidência da República detalhou o desempenho dos candidatos dentro de vários setores da sociedade. Entre detalhamentos por região, idade, escolaridade e renda, a pesquisa mostrou também o desempenho de cada candidato por religião.

Comparados com os resultados das últimas pesquisas, os dados divulgados pelo Datafolha mostrou que Marina Silva lidera as intenções de votos entre os evangélicos, com 39% das intenções de voto entre pentecostais e entre não pentecostais, porém, tendo uma queda entre ambos os grupos desde a última pesquisa (divulgada no dia 08/09). Já Dilma Rousseff, lidera entre os católicos.

quadro geral da pesquisa mostra Dilma Rousseff (PT) com 37% das intenções de voto, Marina Silva (PSB) com 30% e Aécio Neves (PSDB) com 17%. Pastor Everaldo (PSC), Luciana Genro (PSOL) e Eduardo Jorge (PV) ambos com 1%. Os demais candidatos não alcançaram 1%.
Dilma Rousseff

A atual presidente, e candidata à reeleição, lidera as pesquisas entre os católicos, com 40% das intenções de voto desse eleitorado, contra 25% de Marina Silva e 20% de Aécio Neves. O desempenho da candidata entre os católicos permanece o mesmo desde a última pesquisa. Dilma Rousseff lidera também entre os adeptos da Umbanda, com 32% das intenções de voto entre esse eleitorado, uma queda de 7 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior.

Entre os evangélicos, Dilma teve um pequeno aumento nas intenções de voto, passando de 32% a 33% entre os pentecostais e de 26% para 29% entre os não pentecostais.

Porém, a candidata perdeu eleitores entre os espíritas e espiritualistas, caindo de 29% para 28%, e entre os sem religião, passando de 31% das intenções de voto para 28%.
Marina Silva

A candidata do PSB lidera as pesquisas entre quase todos os grupos religiosos ouvidos pela pesquisa, ficando atrás de Dilma Rousseff apenas entre os católicos e umbandistas. Marina Silva detém 39% das intenções de votos entre evangélicos, apresentando uma ligeira queda nesse segmento em relação à última pesquisa, que mostrava 41% e 44% das intenções de voto entre os pentecostais e os não pentecostais, respectivamente.

Marina lidera as pesquisas também entre os espíritas e os espiritualistas, com 41% das intenções de voto. Na pesquisa anterior, ela detinha 32% das intenções desse grupo. Já entre os sem religião, Marina Silva subiu de 33% para 38%, continuando à frente dos outros candidatos. Entre os umbandistas, a candidata do PSB tem 28% das intenções de voto.
Aécio Neves

Em terceiro lugar geral nas pesquisas, o candidato do PSDB mantém também a terceira colocação entre todos os grupos religiosos, com 20% das intenções de votos dos católicos 11% dos evangélicos pentecostais, 16% entre os evangélicos não pentecostais, 17% entre espíritas e espiritualistas, 15% entre umbandistas e 14% entre os sem religião.







































Veja a íntegra da pesquisa aqui.

FonteG1Gospel+ 

Eleições 2014: o poder do voto evangélico

Vários sinais contundentes mostraram, no fim de agosto, como as questões morais, de cunho religioso, passaram a guiar os políticos brasileiros – com uma força que só encontra paralelo, entre as grandes democracias ocidentais, com o que ocorre hoje nas campanhas políticas nos Estados Unidos. Um dia depois de lançar seu programa de governo, a candidata Marina Silva (PSB), hoje favorita a conquistar o Palácio do Planalto, depois de pressionada nas redes sociais pelo pastor Silas Malafaia, um dos líderes da Assembleia de Deus, voltou atrás numa série de compromissos. O primeiro dizia respeito à união civil homossexual. Marina é a favor – e reafirmou isso em vários programas de televisão ao longo da semana. Mas não queria que a união civil constasse, em seu programa de governo, com o nome de “casamento”, um sacramento religioso. O segundo ponto dizia respeito à lei que torna a homofobia um crime, defendida na primeira versão de seu programa. Essa lei já foi rejeitada no Senado. Religiosos alegaram na ocasião que ela não dizia com clareza se dogmas pregados nos templos, sem intenção ofensiva, poderiam ser classificados como “homofobia”.

Com a atitude, Marina ganhou o aplauso dos religiosos. “Ela teve coerência. Tem coisa que o candidato promete e não dá para fugir”, diz Malafaia. “Tínhamos dificuldades para falar com ela, porque ela dava respostas para agradar a gregos e troianos”, afirma o pastor Marco Feliciano, deputado federal pelo PSC de São Paulo. Feliciano é execrado pelo movimento LGBT, por ter defendido, na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o projeto da “cura gay”. “No momento em que Marina teve de se decidir de fato, ela se colocou como uma cristã de verdade”, diz ele. Marina atribuiu o vaivém a um “erro no processo de editoração” de seu programa. Percebendo um flanco para atacar contradições da rival, a presidente Dilma abraçou a defesa da lei contra a homobofia – embora ela tenha recuado na decisão de distribuir material didático a favor da tolerância sexual, tachado como “kit gay” pelas lideranças evangélicas.

O recuo de× Marina choca os marineiros “sonháticos”, mas, de umponto de vista estritamente eleitoral, faz sentido. Embora conserve o título de país com o maior número de católicos do mundo, o Brasil avança com rapidez para se tornar uma nação mais evangélica. Em dez anos, os evangélicos passaram de 15,4% da população para 22,2%, um total de 42,3 milhões. Com 22% do eleitorado, somam hoje quase 27 milhões de votos. Embora Marina Silva não seja da bancada evangélica e, em sua carreira política, tenha sempre defendido valores laicos, a maioria dos evangélicos vota nela – 43%, contra 32% de× Dilma, segundo a pesquisa do× Ibope divulgada na semana passada. Um outro dado da mesma pesquisa, que passou despercebido, explica ainda melhor por que é tão importante para um candidato à Presidência não se indispor contra os valores religiosos. De forma geral, os candidatos evangélicos se opõem – com diferentes nuances de tolerância – ao casamento gay, a mudanças na lei da interrupção da gravidez e à liberação das drogas. A pesquisa do× Ibope mostrou que a maior parte dos brasileiros, independentemente de religião, pensa como os evangélicos: 79% são contra o aborto; 79%, contra a liberação da maconha; e 53%, contra o casamento gay. A mesma pesquisa revela que 75% dos brasileiros são a favor do× Família. Isso significa que, se é majoritariamente a favor de políticas sociais, a sociedade brasileira é conservadora em temas ligados a família e comportamento.

A influência crescente dos evangélicos deverá ser ainda mais decisiva nas eleições deste ano por causa da chegada de×Marina, missionária da Assembleia de Deus, à condição de protagonista da disputa. Com sua religiosidade, seus trajes comportados, seu cabelo comprido disfarçado com um coque e seus discursos em tom de pregação, seduz os evangélicos e seus pastores, que sonham com um irmão de fé na× Presidência. “Existe um projeto de poder dos pastores pentecostais: aumentar a bancada dos evangélicos e chegar à Presidência”, afirma o cientista político× Jacob, da PUC do× Rio de Janeiro, estudioso das eleições presidenciais. Se eleita,× Marina será a primeira presidente do país filiada a uma denominação pentecostal, o ramo mais numeroso dos evangélicos (o Brasil teve antes dois presidentes protestantes de outras denominações: o presbiteriano Café Filho e o luterano Ernesto Geisel).

A identidade religiosa de Marina a ajuda a obter votos entre os evangélicos. Pesquisa do× Ibopemostrou que, em duas semanas (início de setembro), Marina foi quem mais cresceu no segmento: de 37% para 43% do eleitorado evangélico. Dilma foi de 27% para 32% e Aécio caiu de 17% para 10%. Segundo o Ibope, se o segundo turno fosse agora,× Marina seria eleita presidente graças, sobretudo, ao voto dos eleitores evangélicos. Na média, 53% dos eleitores de denominações evangélicas declaram voto em× Marina, ante apenas 33% que dizem preferir×Dilma. Entre os católicos, Marina e Dilma aparecem empatadas com 43% na simulação de segundo turno.

A despeito de os católicos serem o maior contingente do eleitorado (63%), seu impacto no resultado da eleição é mínimo como grupo religioso. Não é o caso dos evangélicos. Sua força eleitoral se deve à maior uniformidade do voto. Não é regra, mas, em geral, “crente vota em crente”. “Os evangélicos não querem saber da independência do× Central ou não. Eles votam no irmão”, diz× Jacob, da PUC-Rio. Os evangélicos não votam como os católicos, espíritas, judeus, umbandistas. Demonstram com maior ênfase sua preocupação com os valores dos candidatos e as questões morais. “Os evangélicos obedecem mais às indicações de suas igrejas de votar nos pastores”, afirma o cientista político× Fleischer, da Universidade de Brasília.

A maior demonstração de que esse tipo de orientação é seguida se deu na eleição de 2002. No primeiro turno,× Lula da Silva e José Serra foram os candidatos à Presidência mais votados, com 46,5% e 23,2% dos votos, respectivamente. O evangélico× Garotinho, da Igreja Presbiteriana, ficou em terceiro, com 17,9%. Ao estudar o voto dos evangélicos para seu pós-doutorado na×Universidade de São Paulo, a pesquisadora× Bohn encontrou um cenário bem diferente. “A maioria dos evangélicos (51,3%) afirmou ter votado em Garotinho”, diz× Bohn em sua tese. Na disputa de 2010, o mesmo ocorreu com× Marina, na ocasião no Partido Verde (PV). A unidade dos evangélicos no× Brasil se reflete também na composição do× Congresso. A bancada evangélica tem hoje 74 parlamentares, o ápice na história. Estivessem todos num partido, os evangélicos formariam a terceira maior legenda no× Parlamento, atrás apenas de PT e PMDB. Nestas eleições, eles acreditam que poderão crescer ainda mais. “Esperamos eleger, no mínimo, 80 candidatos. Mas podemos chegar até a 120”, diz Malafaia.

Com os fiéis transformados em clientela eleitoral cativa, não é à toa que todos os candidatos assediam as igrejas evangélicas em busca de apoio. Dilma articula sua aproximação desde antes da chegada de× Marina ao pleito. Em julho, uma reunião no× Palácio da Alvorada definiu que ela teria uma agenda de encontros dela com lideranças evangélicas. Menos de uma semana depois,× Dilma estava ao lado de× Macedo, da Igreja Universal do× Reino de Deus, inaugurando o monumental× Templo de Salomão, em× Paulo. Passaram-se mais dez dias – e lá estava× Dilma na Assembleia de× Deus do Brás, novamente em× Paulo, num encontro de mulheres, pedindo orações. “Acredito naqueles que creem. Acredito no poder da oração. Não se esqueçam de orar por mim. Todos os dirigentes deste país dependem do voto do povo e da graça de× Deus. Eu também”, disse.

No começo de julho, o candidato do PSDB, Aécio Neves, também visitou a Assembleia de Deus. O pastor José Wellington, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus, não declarou apoio a ele, ao contrário do que fez com José Serra em 2010. Apenas o levou a uma reunião com outros integrantes da igreja. No final de julho, Aécio compareceu à Celebração de Inverno do Ministério Sara Nossa Terra. Foi recebido pelo bispo Robson Rodovalho. Na semana passada, Rodovalho oficializou apoio a Marina. Ciente das dificuldades de capturar o voto evangélico, por causa de Marina e do candidato do PSC, o Pastor Everaldo, Aécio aposta mesmo no eleitorado católico.

Para seduzir os evangélicos, quanto mais conservador nos costumes o candidato se mostrar, maior é a chance de conquistar votos. “Nossa principal exigência é que o candidato esteja afinado com a defesa da família tradicional, a proibição do aborto e do casamento de pessoas do mesmo sexo”, afirma o pastor Lélis Washington Marinho, presidente do Conselho Político da Convenção Geral das Assembleias de Deus. É o maior e mais antigo ramo das Assembleias de Deus no Brasil, de que Marina faz parte (esse ramo diz ainda não ter escolhido candidato). No caso do aborto, Marina diz ser contra e defende um plebiscito para decidir a questão. Com essa posição, evita se indispor com eleitores de diferentes posições, ao mesmo tempo que aposta que o conservadorismo da maioria derrubará nas urnas a legalização. Parece ambíguo, mas é uma opção inteligente. Numa eleição disputadíssima, nenhum candidato poderá errar na conquista dos evangélicos.

FonteÉpoca Com a colaboração de Marcelo Figueiredo.



O peso do voto evangélico nas eleições
Entrada de Marina Silva – e a escorregada de sua campanha – levaram temas como aborto e casamento gay para o centro da campanha

No início de setembro, a equipe da campanha da candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, comemorava o resultado da pesquisa Datafolha, que registrava a meteórica arrancada da ex-senadora, nova favorita para alcançar o cargo mais poderoso da República. Horas depois, os mesmos assessores se desdobravam para tentar estancar uma crise que se espalhava pelasredes sociais à mesma velocidade com que a candidata ascendeu nas pesquisas. O motivo: o capítulo do programa de governo do PSB que defendia o casamento gay havia sido alterado. E Marina passou a ser bombardeada dos dois lados: foi alvo da fúria de pastores evangélicos e de movimentos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais).

Que temas como o casamento gay e a legalização do aborto sempre aparecem incendiando debates em eleições não é nenhuma novidade para os eleitores brasileiros – e os assuntos talvez não sejam tão discutidos no país quanto no período de campanha. Por trás da discussão está o peso da religião na hora do voto. E a entrada da evangélica Marina Silva, da Assembleia de Deus, na corrida eleitoral após a trágica morte do cabeça da chapa, Eduardo Campos, imediatamente levou temas como aborto e casamento gay para o centro da campanha. Não é possível dimensionar ainda o tamanho real do estrago, mas, dois dias depois do recuo de Marina com sua cartilha de governo, o instituto Datafolha estava na rua pesquisando as intenções de voto. O resultado: Marina caiu de 41% para 39% das intenções de voto entre os evangélicos.
Apesar do desgaste pela mudança de posição, coordenadores e aliados de Marina avaliam que a decisão fez mais bem do que mal à trajetória eleitoral dela: os evangélicos representam 22% dos brasileiros. E essa faixa do eleitorado tende a um alinhamento natural à candidatura de Marina. Prova disso foi que sua entrada na corrida presidencial desidratou justamente o candidato oficial das igrejas, que leva o "pastor" no nome: Pastor Everaldo, do Partido Social Cristão, o PSC. “Pastor Everaldo chegou com grande potencial de polarizar nossos votos, mas a propositura da Marina foi mais ampla, juntou a bandeira da família com o contexto social e político do momento”, diz o bispo Robson Rodovalho, fundador da igreja Sara Nossa Terra, no Distrito Federal, onde a candidata do PSB lidera as pesquisas de intenções de votos com 33%, ante 23% de Dilma Rousseff, segundo o Datafolha. 

A influência nas eleições de bandeiras defendidas pelos evangélicos é reflexo da própria expansão da religião no país. Segundo o último Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em 2010, os seguidores representam 22,2% da população, percentual que aumentou 61% em relação às duas décadas anteriores – em 1991, eram 9%.

Os evangélicos também têm forte presença no Congresso Nacional, em comparação aos católicos, religião da maioria dos brasileiros. Nos meios de comunicação, a busca dos pastores começou nos anos 1980 como uma forma de conquistar concessões de rádio e televisão. Atualmente, o Congresso possui 73 deputados e senadores evangélicos – a meta para este ano é que o número chegue a cem cadeiras. Desde 1986, a cada pleito, o número de parlamentares cresce 20%. Neste ano, a bancada evangélica emplacou o primeiro representante no Executivo: o bispo Marcelo Crivella (PRB), sobrinho de Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) – ele deixou o cargo de ministro da Pesca para concorrer ao governo do Rio de Janeiro.

Apesar da crescente representatividade política, é difícil esperar que os 22,2% da população brasileira que se declara evangélica irá votar em bloco em um determinado candidato. “Eles não são um grupo homogêneo, é uma diversidade grande”, diz Magali do Nascimento Cunha, professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista.

Mesmo com interesses difusos, os bispos e pastores representam o segmento da sociedade atual mais comprometido com o debate político. “Não há outro grupo tão articulado e com objetivos tão nítidos do que os evangélicos”, diz Magali. 

Rio de Janeiro – Em poucos Estados brasileiros a disputa do voto evangélico é tão representativa quanto no Rio de Janeiro, que tem dois dos quatro principais candidatos ligados a igrejas: Marcelo Crivella e Anthony Garotinho (PR). Em pesquisa do Ibope no início de setembro, Garotinho liderava a disputa com 27% das intenções de voto, enquanto Crivella marcava 17% das preferências. De acordo com a pesquisa, feita entre os dias 30 de agosto e 1º de setembro, 29% do eleitorado fluminense é evangélico, 48% se declaram católicos e 23% dizem ter outra religião.

Os evangélicos estão divididos entre Crivella e Garotinho, que se apresenta como "Irmão Garotinho" em programas de rádio e já foi multado por distribuir brindes religiosos. Entre os evangélicos, 30% apoiam Garotinho e 28% apoiam Crivella.

Para tentar ganhar votos de eleitores católicos ou que declaram ter outras religiões, o marqueteiro Lula Vieira tenta fazer adaptações na imagem de Crivella. Em eleições passadas, ele começou bem, impulsionado pelos evangélicos, mas não chegou ao segundo turno. Pela primeira vez desde que concorreu e foi eleito em 2002, o bispo licenciado foi recomendado pelo marqueteiro a evitar o uso da palavra "universal" e a trajetória religiosa simplesmente deixou de ser mencionada na biografia do seu site.

"O limite do Crivella é exatamente o fato dele ser evangélico. Existe discriminação à maneira como ele construiu sua carreira de político", explica a socióloga Maria das Dores Campos Machado, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora de Política e religião: a participação dos evangélicos nas eleições.

Garotinho misturou o apelo religioso com práticas populistas no governo (1998-2001) e hoje possui a maior rejeição entre os candidatos (34%). É considerado o adversário preferido no segundo turno entre os candidatos, por esse índice negativo. "Crivella e Garotinho aproveitam o eleitorado evangélico, mas o problema é falar com o resto. A capital vai ser dura com eles", avalia o cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio.

Se para Garotinho e Crivella o desafio é conquistar eleitores fora dos templos evangélicos, Lindberg (PT) e Pezão (PMDB) ainda tentam conquistar espaço nesses redutos. Desde o ano passado, o candidato petista, ex-comunista e católico não-praticante, percorre cultos e abraça fiéis. Pezão também tenta não ficar em desvantagem. Bateu o recorde de aparições na maior rádio gospel do Estado e por isso chegou a ser multado pelo Tribunal Regional Eleitoral por campanha antecipada.

FonteVeja. Com a colaboração de Marcelo Figueiredo



O jeito evangélico de pedir votos e fazer política

O breu e o silêncio da noite dominavam a ampla sala. Jovens sonolentos, de boné, calça jeans, camiseta e casaco de capuz formavam um círculo. Esperavam em pé, rodeados de cadeiras de plástico e uma mesa de som. Eram 5h20 de uma quarta-feira fria de julho, e o sol ainda não se erguera no Setor de Mansões de Sobradinho II – apesar do nome, uma área pobre de Brasília. Ainda na penumbra, o pastor Rodrigo Delmasso pôs fim à espera. Vestia calça e blusa de moletom. Subiu ao diminuto palco e se embrulhou numa bandeira do Brasil. “Vamos orar, gente?”, disse Delmasso. Apertou bem os olhos, baixou a cabeça e abraçou o pastor titular daquela pequena igreja. Delmasso descarregou, com a voz forte e num só fôlego, a ladainha que induziria aqueles 25 jovens a um aparente transe. “Meu Deus, estamos vivendo neste país um momento de decisão. Nós pedimos, em nome de Jesus, que o Senhor possa, Pai amado e Pai querido, conduzir essas eleições. Que levante homens justos, homens para ocupar a posição de poder que estejam ligados ao Pai, comprometidos em estar trabalhando pelo bem das pessoas!” “Aleluia”, respondiam incessantemente, mãos ao alto, os fiéis. “Que o Senhor possa levantar, meu Deus, homens e mulheres que combatam a desigualdade social, que combatam a violência, que possam combater, em nome de Jesus, todas as mazelas existentes em nossa sociedade. Que o senhor possa levantar homens e mulheres de Deus que possam assumir a gestão do nosso país.” “Amém! Aleluia!” A oração durou três intensos minutos. Acenderam-se as luzes.

Delmasso, de 34 anos, é um jovem pastor da igreja evangélica Sara Nossa Terra. É também candidato a deputado distrital – em Brasília, o equivalente a deputado estadual. Numa cruzada político-religiosa, ele tem madrugado para visitar igrejas, falar sobre “a sociedade que queremos” e pedir orações. A panfletagem tradicional fica do lado de fora dos templos. Por lei, ele não pode pedir voto no culto. Pode, no entanto, suplicar que rezem por ele. Até outubro, esse tipo de cena se multiplicará nos milhares de igrejas do país. Candidatos evangélicos de diversas denominações (só pastores são 270) tentarão chegar ao Congresso.

Delmasso é um dos 345 postulantes a um mandato que usam na urna títulos como “pastor”, “bispo” ou “missionário”, segundo um levantamento feito por ÉPOCA. É um crescimento de 47% em relação a 2010 e mais que o triplo de 1998. Num Brasil cada vez mais evangélico, que pode eleger um deles para o Planalto, ÉPOCA acompanhou de perto o jeito evangélico de fazer política – e campanha. Seguimos dois pastores-candidatos. Um foi o próprio Delmasso, do PTN, pastor de uma igreja fundada em 1992, com mais de 1.000 templos e 1,3 milhão de fiéis. O outro foi o deputado federal Ronaldo Fonseca, candidato à reeleição pelo Pros do Distrito Federal. Fonseca é pastor da Assembleia de Deus, maior e mais tradicional denominação evangélica do país, fundada em 1910, com mais de 12 milhões de seguidores.

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Naquela manhãzinha gelada de julho, depois da reza pelo futuro do país e pela qualidade de seus líderes, preferencialmente “homens de Deus”, Delmasso conversou com os jovens. Estava descontraído. Muitos deles admitiram ser ex-dependentes químicos. O culto acontece tão cedo porque os moradores de periferia madrugam para trabalhar – e o caminho é longo. Os ônibus já circulavam lotados na avenida em frente ao templo antes das 6 horas. Delmasso não falou explicitamente que era candidato. Não precisava. Os presentes foram avisados na semana anterior de que ele estaria ali naquele dia. “Quem não quiser me ouvir falar não vem”, diz Delmasso, enquanto dirige seu carro pelas ruas vazias de Brasília. Seu raciocínio é simples: não é pecado usar o púlpito para falar de um país melhor, para incentivar o fiel a exercer seu papel de cidadão. Desde que não se peça voto. Delmasso não é exatamente carismático. Mas sabe falar com os jovens – e ouvi-los. Ele perora por dez minutos sobre os perigos de uma sociedade onde crianças têm acesso a livros em que se ensinam posições sexuais. Sobre as ameaças de uma legislação que visa baixar a idade de consentimento sexual dos 14 para os 12 anos – ou, como ele define, “a legalização da pedofilia”. Ambas as questões passam longe da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Ele prossegue. Fala da proteção de suas filhas contra as drogas, tema sob medida para aquele público. Roga que os fiéis pensem no futuro que querem para si. A conferência é encerrada pelo pastor daquela unidade. Ele pede bênçãos “para a caminhada do Rodrigo”.

Assim que atravessam a porta de ferro rumo à calçada, os jovens recebem um jornalzinho do partido de Delmasso, o anódino PTN, cujo diretório em Brasília é presidido por ele. Delmasso está espalhado pelas quatro páginas do folheto. Em seu currículo, antes da formação em gestão pública e da pós-graduação em serviço social, vem o título de pastor. “O eleitor não é alienado. Nenhum ser humano admite ser manipulado por outro”, diz Delmasso. Nem em nome de Deus? “Não aceita, não aceita, não aceita. A pessoa pode escolher, dentro de seus conceitos e valores internos. Mas isso é o estado democrático de direito, o direito de livre escolha. Não temos de julgar se é certo ou errado.” Já acomodado no sofá da sala de sua casa, Delmasso justifica a legitimidade de sua campanha comparando seu direito de defender os interesses de seu grupo ao de outros segmentos. Recorre aos sindicalistas. “Qual a diferença para um candidato que vai para a frente de uma fábrica, falar para os eleitores de seu setor? Muitos ainda usam o nome de Deus em segmentos que não têm nada a ver... É a pluralidade da democracia. A igreja é uma entidade social que representa um estrato da sociedade. Um bancário se elege para defender seus pares. Um taxista também. Se as categorias têm esse direito, por que a igreja, uma expressão da sociedade, não teria?”

Delmasso argumenta ainda que o eleitor evangélico é mais resistente que os demais. Ficou arisco depois de tantos escândalos de corrupção envolvendo políticos que atuam sob o signo da fé. O mais devastador foi o escândalo dos sanguessugas, que veio à tona em 2006. Tratava-se do desvio de dinheiro público destinado à compra de ambulâncias. Um dos acusados foi o Bispo Carlos Rodrigues, da Igreja Universal do Reino de Deus, mensaleiro condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Naquelas eleições, a bancada evangélica no Congresso caiu de 61 para 36 parlamentares. O fiel passou a ver com imensa desconfiança o engajamento de seus líderes com a política. Depois veio a público a infame “Oração da Propina”, flagrada em vídeo divulgado em 2009 por Durval Barbosa, delator do mensalão do DEM, esquema de distribuição de dinheiro em troca de apoio dos deputados distritais. Nas imagens, o ex-deputado Júnior Brunelli, filho do fundador da igreja evangélica Casa da Bênção, abraça o colega Leonardo Prudente, então presidente da Câmara Legislativa do DF, e Durval Barbosa, então secretário do governador José Roberto Arruda, responsável por repartir a propina. Prudente reza: “Olha, somos gratos pelo amigo Durval, que tem sido um instrumento de bênção para as nossas vidas e para essa cidade, que o Senhor contemple as questões do seu coração. (...) A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer”.

A “Oração da Propina” deixou os evangélicos descrentes. Muitos não queriam mais votar em seus pastores. “Quando falo com irmãos da igreja, tenho de convencê-los de que sou diferente. Eles me questionam: ‘Quem garante que você não entrará lá e se corromperá, sujando o nome da igreja?’. São mais difíceis do que qualquer outro público”, diz Delmasso. Não há mesmo como provar quanto a crença do fiel se converte em voto aos candidatos oficiais das igrejas ou aos indicados por seus líderes. O próprio Delmasso, que tentou se eleger em 2010, teve 6 mil votos. Virou apenas suplente. Somente em Brasília, a Sara tem 70 mil fiéis e 105 templos. Há indicadores, porém, de que escolher candidatos oficiais nas igrejas e “orar” por eles dá resultado. A tese de mestrado da cientista política Isabel Veloso, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, mostra que os evangélicos gastam menos do que qualquer outro candidato para se eleger. Metade dos deputados evangélicos eleitos em 2010 gastou até R$ 5 por eleitor. Entre os demais eleitos, 21% gastaram essa quantia. “O eleitor, de qualquer segmento, quer escolher em quem votar tendo o menor esforço possível. Quando o líder religioso já é ou indica o candidato, essa escolha é facilitada”, diz Isabel. “Some a isso o fato de que os evangélicos têm um grau altíssimo de frequência nos cultos. Nas igrejas pentecostais, especialmente a partir de duas semanas antes da eleição, a exposição ao tema político com esse tipo de discurso é muito grande.”

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Sob o termo “evangélico” cabem dezenas de igrejas. Uma pequena amostra: Delmasso, depois do culto da madrugada, fez um corpo a corpo no Shopping Popular de Ceilândia, outra área pobre de Brasília. Num raio de 2 quilômetros, ÉPOCA identificou 16 templos de igrejas evangélicas distintas. Entre elas, a Igreja Pentecostal Tabernáculo de Cristo, a Igreja Pentecostal Carruagem de Fogo, o Ministério das Nações Soberania Divina, a Igreja Batista El Shadday e a Igreja Evangélica Cristo Reina. Nem todas as denominações são inclinadas ao palanque. A divisão mais comum é entre evangélicos de missão (as igrejas mais antigas, como batista, adventista e presbiteriana); pentecostais (as nascidas no início do século XX nosEstados Unidos e no Brasil, como Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Quadrangular e Deus é Amor); e as neopentecostais (as igrejas criadas a partir dos anos 1970, como Universal do Reino de Deus e Sara Nossa Terra). As evangélicas de missão têm entre seus dogmas não se envolver diretamente com política. As pentecostais e as neopentecostais adotaram uma postura mais engajada desde o fim da ditadura. Foi quando a Igreja Católica aumentou sua bancada no Congresso. Os evangélicos temiam perder espaço e influência.


Uma pesquisa do sociólogo inglês Paul Freston mostra que o crescimento da bancada evangélica vem desde o início do processo de redemocratização. Uma decisão política, tomada pela cúpula de algumas igrejas ainda na década de 1980, foi fundamental para esse aumento da bancada. Naquele tempo, diz Freston, havia um discurso comum entre várias agremiações protestantes. Elas consideravam a política como a “esfera da corrupção e do pecado”. “Isso mudou em 1986. Quem liderou a mudança foi a Assembleia de Deus, que decidiu se organizar internamente e escolher candidaturas para apoiar”, afirma Freston. O trabalho dele mostra que, por volta de 1985, a cúpula da igreja decidiu apoiar 18 candidaturas para a Assembleia Constituinte.

Naquele momento, uma revolução foi forjada nas igrejas pentecostais. Aos poucos, a crença de que política era coisa do diabo foi trocada pelo mantra “Irmão vota em irmão”, professado num livro com o mesmo título, escrito por Josué Sylvestre, um assembleiano e assessor do Senado. Nele, Sylvestre diz: “Pastores do Brasil, em nome de Jesus Cristo, despertem para a realidade da conjuntura nacional; não deixem seus rebanhos sem uma orientação segura, coerente, oportuna e bíblica”. Em 1988, a representação evangélica avançou para 36 parlamentares. Eram 17. Hoje, são 75 deputados e três senadores. A estimativa do ex-presidente da Frente Parlamentar Evangélica, João Campos, é que possa chegar a 90 deputados em outubro. A partir da Constituinte, a sobreposição entre religião e política foi tão intensa quanto questionada. Episódios recentes, como a escolha do pastor Marco Feliciano (PSC) para a presidência da Comissão dos Direitos Humanos na Câmara, uma das frentes mais progressistas do Legislativo, propiciaram o choque entre os “homens de Deus” e os “defensores do Estado laico”.

O Censo de 2010 mostra que é falsa a ideia segundo a qual o voto evangélico é iletrado e pobre. Ele mostra que 73,7% dos evangélicos ganham até três salários mínimos. Entre os católicos, essa percentagem é de 75%. Enquanto 48,5% dos evangélicos não têm estudo ou têm apenas o fundamental incompleto, esse número chega a 51,2% dos católicos. A Sara Nossa Terra atrai boa parte de seus seguidores nas classes A e B. O apelo é outro. No Brasil, os partidos políticos e o Congresso são as instituições com o menor índice de confiança entre a população. A igreja tem o maior. Um líder religioso que se propõe a levar à política os valores da igreja sai na frente do político ordinário, que não usa essa plataforma. “Essa defesa de valores e princípios é legítima”, diz Freston. “O problema é que os candidatos das igrejas normalmente não têm trajetória política, formação. Fixam-se em assuntos que não são obviamente políticos, como a família, e não têm preparo para lidar com os temas políticos reais, de que tratarão no Congresso.”

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Muitas vezes, os pastores-deputados escondem, por trás da luta pelos bons costumes, a intenção de defender os interesses da igreja enquanto corporação. Há alguns anos, a estratégia era principalmente para conquistar concessões de rádio e TV. Com essa rede de comunicação já estabelecida, os evangélicos passaram a ambicionar outros benefícios. Basta fazer um levantamento dos projetos propostos pela bancada evangélica que tramitam na Câmara. Intercalados aos que vedam a discriminação aos religiosos e aos que propõem consulta pública sobre a união civil de pessoas do mesmo sexo, vêm os que excluem as igrejas da obrigação de pagar IPI na compra de automóveis, ou de atender o Estatuto de Impacto da Vizinhança na construção de um templo, ou ainda de pagar direitos autorais por músicas usadas em cultos. “Os candidatos oficiais das igrejas, depois de eleitos, ficam com uma enorme obrigação de atuar em nome da denominação”, diz Freston. A defesa da família acaba sendo só o discurso mais barulhento.

O deputado federal Ronaldo Fonseca, pastor e advogado de 55 anos, transita entre essas duas zonas da atuação de um pastor-político. Bem cedinho numa quarta-feira de julho, estava ele num galpão de Taguatinga, um dos bairros mais populosos do Distrito Federal. Cerca de 50 pastores da Assembleia de Deus da região se esbaldavam de café com leite, pão com manteiga, laranjas e bolo. Fonseca é baixinho. Quase desaparece diante de um grande cartaz com uma foto sua e a frase “Estarei obstinado a alcançar os sonhos que Deus escolheu para mim”. Sua voz preenche o espaço, fruto de 30 anos de pastoreio. Ele fez um balanço de sua atividade parlamentar. Argumentando que não atua só para o segmento, enumerou os recursos que ajudou a trazer para Brasília para construir centros para a juventude, criar clínicas da família, cobertura de quadras. Ato contínuo, perguntou: “Qual o maior patrimônio que temos? A família. Por que o Estado não entende isso? Por que o Estado aposta no desmonte da família?”. Fonseca é o coordenador dos 23 parlamentares da Assembleia de Deus no Congresso – eles querem chegar a 30 nesta eleição. Foi também, por dez anos, coordenador político da igreja. Viajava o país para convencer os fiéis a se envolver mais diretamente com o assunto. Na Câmara, é membro titular da Comissão de Cidadania e Justiça e suplente na de Direitos Humanos. “Sou o relator, o-re-la-tor, do Estatuto da Família”, diz, com voz de púlpito.

Em sua van, depois de desfiar todas as ameaças contra a família que tramitam no Parlamento para os pastores e sugerir que eles “peçam ajuda para os amigos e a família na nossa caminhada”, Fonseca evoca, assim como fez Delmasso, os sindicalistas como contraponto de legitimidade para a atuação dos evangélicos. Afirma que, em seu ministério, está proibido falar de política nos cultos. ÉPOCA pergunta se é função do Estado regular a família brasileira. Primeiro, ele cita o Artigo 226 da Constituição. O texto diz: “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento”. Ele emenda a seguinte analogia: “Se, na hora do almoço, alguém decide que, em vez de comer pela boca, vai comer pelo nariz, pelo ouvido, isso é normal? Com o tempo, ficará doente. Quem arcará com isso será o Estado. Então, ele deve interferir, como interfere nos acidentes de moto... Agora, você não pode ter preconceito, não pode discriminar”.

Cumprida a etapa da defesa da família pela manhã, naquela noite Fonseca ofereceu mais comes e bebes para pastores da cúpula de uma Assembleia de Deus do Guará. O jantar, oferecido para cerca de 180 pessoas num salão de festas da própria igreja, tinha como convidados especiais o governador Agnelo Queiroz, candidato à reeleição, e Geraldo Magela, secretário de Habitação e candidato ao Senado, ambos do PT. Sem o menor constrangimento, Agnelo e Magela peregrinaram até ali para pedir votos para si e para Fonseca. A recíproca era verdadeira. Agnelo discursou sobre a parceria que o DF tem com as igrejas em trabalhos sociais. “Irmãos e irmãs, o deputado Ronaldo é um grande parceiro. Trouxe as demandas das igrejas para nosso governo, e atendemos.” Quando Fonseca tomou a palavra, as demandas ficaram mais claras. Ele fez questão de agradecer ao secretário Magela por ajudar a resolver a disputa de um terreno próximo dali, cobiçado por ele e por uma igreja católica, em 1993. Fonseca levou.

Atestando o valor de seu capital político naquele jantar, Fonseca afirmou que aquele era um ministério sério, que não se vende. Disse que naquelas mesas estavam verdadeiros líderes. “Não como em outras reuniões em que eles pegam um diaconozinho qualquer e botam gravata.” Imediatamente, apresentou a fatura. “Voltando para o governo, governador, lembre-se sempre deste dia, do que essas pessoas estão fazendo por você.” Fonseca convidou outro pastor a fazer a oração de encerramento daquele jantar político-religioso. “Sabemos que a autoridade constituída está na mão do Senhor. E Lhe pedimos agora, Senhor, bênção em favor do governador, bênção em favor do candidato ao Senado, Senhor, aos candidatos a deputado federal e distrital. É em nome de Jesus que pedimos agora, Senhor, a proteção divina.” Ali, às claras e no burburinho da fé, o transe foi político.

FonteÉpoca.
 
Qual será o peso dos evangélicos na eleição ?Evangélicos : 8 perguntas e respostas para ajudar no debate

Apesar das campanhas negarem, candidatos e partidos costumam se render aos interesses de líderes e igrejas evangélicas em troca de apoio nas eleições. Essa situação não é exclusiva da campanha de Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB. A aproximação de políticos e igrejas nas eleições e até mesmo durante atividade parlamentar demonstra como os evangélicos ganharam importância entre a sociedade brasileira atualmente. Saiba como e de que forma essa corrente religiosa pode influenciar o resultado das urnas em outubro:

Qual o peso do voto evangélico?
Cerca de 22% dos brasileiros se declaram evangélicos (42,2 milhões de pessoas), segundo o último censo do IBGE. O país ainda segue com maioria católica (123,3 milhões, ou 64% da população), mas o crescimento dos evangélicos foi de 61,45% em 10 anos. Por outro lado, os evangélicos são mais unidos na hora de escolher seus candidatos. Segundo o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC-Rio, há alguns anos, os pentecostais e neopentecostais têm seguido o princípio: “irmão vota em irmão”.

Os evangélicos podem dar vitória a um candidato?
Em um cenário acirrado como a disputa entre Dilma e Marina, o voto evangélico pode ser um trunfo. As candidatas de PT e PSB estão praticamente empatadas, segundo as últimas pesquisas. Logo, a conquista de votos em massa de um setor da população em crescimento, como é o evangélico, pode decidir uma eleição. Segundo o Ibope, a maior vantagem de Marina está justamente no eleitorado evangélico. Em São Paulo a candidata do PSB tem 49% dos votos dos eleitores dessa fé, contra 20% de Dilma e 9% de Aécio. Entre os eleitores católicos, a disputa é mais dura. Marina tem 36%, contra 25% de Dilma e 19% de Aécio, segundo o Ibope.

As denominações evangélicas fazem campanha por candidatos?
É comum que diferentes correntes ou líderes evangélicos anunciem apoio a determinado candidato e partido político. O próprio Malafaia apoia, no primeiro turno, o candidato do PSC à Presidência, Pastor Everaldo. No segundo turno, o líder da Assembleia de Deus Vitória já declarou que vai de Marina. O bispo e ex-deputado Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, que tem 1,1 milhão de fiéis, também irá votar em Marina e disse que pedirá a seus fiéis que votem na ex-ministra. A Universal do Reino de Deus, por sua vez, vai apoiar Dilma. Já as Assembleias de Deus, dos ministérios do Belém e Madureira, vão defender o voto no Pastor Everaldo.

Os líderes religiosos podem pedir voto?
A Lei das Eleições proíbe que pastores, bispos, padres, candidatos ou qualquer pessoa faça propaganda eleitoral em ambientes como igreja e templos religiosos. A publicidade também não pode ser feita por meio de cartazes, vídeos ou qualquer outra forma de exposição. Mas, fora de templos, qualquer líder evangélico pode manifestar apoio ou crítica a políticos e candidatos.

Marina Silva é de qual igreja?
A candidata do PSB é fiel, desde 2004, da Assembleia de Deus do Plano Piloto (Novo Dia), que fica em Brasília. A igreja é ligada à Assembleia de Deus no Brasil, a maior denominação evangélica no Brasil hoje. Segundo o último Censo, a Assembleia de Deus passou de 8,4 milhões para 12,3 milhões em dez anos. Antes, Marina Silva pertencia à Assembleia Bíblica da Graça.

Qual o tamanho da bancada evangélica?
No Congresso são 73 parlamentares, sendo 70 deputados federais e três senadores, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP). A atividade da chamada Frente Parlamentar Evangélica é intensa, principalmente quando estão em pauta temas como a legalização do aborto, drogas ou a união civil de pessoas do mesmo sexo. Entre os partidos, o PSC e o PR elegeram a maior quantidade de representantes evangélicos.

Bandeiras comportamentais, como aborto e casamento gay, são de fato importantes para os evangélicos na hora do voto?
De acordo com especialistas, a agenda comportamental costuma ser mais considerada para a maioria dos evangélicos do que questões como a opinião sobre política macroeconômica, pré-sal ou benefícios sociais. Além de ser um assunto importante para os pentecostais, segundo Jacob, da PUC-Rio, são por meio das bandeiras comportamentais, como casamento gay e aborto, que os evangélicos têm distinguido um candidato dos outros.

Qual a opinião dos candidatos sobre as bandeiras comportamentais discutidas hoje na campanha presidencial?
Marina Silva já declarou publicamente que é contra o aborto, mas fala em plebiscito sobre a questão. Também é contra o casamento gay, mas diz ser a favor da união civil entre homossexuais. Aécio Neves também se posicionou contra a liberação do aborto mas, ao contrário de Marina, é a favor do casamento gay. Na campanha de 2010, a presidenta Dilma assinou compromisso garantindo a grupos religiosos ser contra o casamento gay, mas não se posicionou ainda nessa campanha. Defendeu, na semana passada, a criminalização da homofobia. Defendeu também a interrupção da gravidez, “por motivos médicos e legais”, e sua realização em unidades do Sistema Único de Saúde – o que já é previsto em lei.

FonteCarta Capital. Com a colaboração de Marcelo Figueiredo

Assembleia de Deus coleta assinaturas para criar partido

A igreja da presidenciável Marina Silva (PSB) articula o seu próprio partido em 2015. De acordo com o coordenador do conselho político da Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGADB), pastor Lélis Marinho, já estão sendo coletadas assinaturas por meio de um exército formado por 40 mil pastores e 100 mil locais de culto no país.

"Existe um pensamento em nos concentrarmos em um único partido, para que a nossa ação seja mais direcionada e eficaz. Como a lei eleitoral cria restrições para a migração de partido, as assinaturas para se criar uma nova sigla estão sendo providenciadas", diz. Atualmente há 22 deputados federais assembleanos e Marinho imagina que 30 serão eleitos impulsionados pelas duas candidaturas presidenciais de integrantes da Assembleia de Deus: a de Marina e a do Pastor Everaldo (PSC), que pertence a outra ramificação da confissão religiosa, o ministério de Madureira.

Marinho foi um dos responsáveis por um longo perfil dos quatro principais candidatos a presidente publicado na edição deste mês no jornal "Mensageiro da Paz", órgão oficial da igreja. O artigo tem o propósito específico de orientar o voto dos fiéis e deixa claro que só há uma orientação: combater a reeleição da presidente Dilma Rousseff, chamada de "ateia desde a juventude de guerrilheira comunista".

O artigo afirma que o governo de Dilma representa uma ameaça à religião. Atribui à presidente a defesa de "terríveis propostas", como o casamento entre homossexuais, a criminalização da homofobia, a regulamentação das situações legais de aborto na rede pública de saúde e a liberalização de drogas leves. A posição em relação a Marina, que pertence à Congregação da Assembleia de Deus do Plano Piloto, em Brasília, é de cautela: afirma que a candidata "tem trazido alegria por falar publicamente contra o preconceito aos evangélicos", mas adverte que Marina "muitas vezes é condescendente com grupos radicais de esquerda".

"Vejo a ascensão de Marina como um avanço. É uma possibilidade de diálogo com o governo dentro de outro ponto de vista, mas com ela ainda estamos estabelecendo um diálogo. É curioso, mas temos que buscar interlocução com uma de nossas seguidoras. Ela não assumiu compromissos", diz Marinho, que pondera: "A tendência do voto assembleano ir para ela é completamente natural. Somos a favor do Estado laico, mas um governante precisa ser alguém que tema a Deus. A falta de crença faz toda a diferença". No universo de prioridades políticas da Assembleia, a meta é frear projetos em tramitação no Congresso, e não aprovar novas propostas. Marinho não demonstra interesses em temas de natureza econômica. "Estas são questões que estão fora da nossa agenda", afirma.

Os deputados da Assembleia de Deus atualmente se dividem em 11 partidos. Sete estão no PSC, que lançou a candidatura de Everaldo à Presidência. Entre eles, Marcos Feliciano (SP), que se notabilizou por posições conservadoras extremistas. Ainda há três no PTB, dois no PR e dois no Pros. PMDB, PSB, PSDB, PDT, PRB e SD contam com um cada. O atual presidente da Frente Parlamentar Evangélica é Paulo Freire (PR-SP), filho do líder da Convenção Geral, pastor Wellington Bezerra. Sete parlamentares são da Região Norte, a mesma da acriana Marina.

A bancada assembleana flutua de acordo com o tamanho da bancada evangélica, que vinha em uma trajetória ascendente até uma queda abrupta nas eleições de 2006. Na eleição daquele ano, a bancada evangélica foi afetada pela repercussão do escândalo dos "sanguessugas", um esquema irregular de desvio de recursos públicos por meio da apresentação de emendas parlamentares ao Orçamento. Entre os 72 deputados envolvidos, os evangélicos eram 28. Nenhum se reelegeu na eleição daquele ano. "Aquilo atingiu indistintamente a todos os que tinham associação conosco, estivessem ou não envolvidos no caso", afirma Marinho.

FonteValor Econômico

Campanha defende voto separado da religião

A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) planeja colocar na rua uma campanha para dizer aos eleitores que deixem de lado a religião na hora de votar. O Estado teve acesso às mensagens que a Atea imprimiu em outdoors que devem ser espalhados, a partir de amanhã, em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre e Florianópolis.

São cinco placas diferentes. A que fala mais diretamente sobre eleição diz: “Não vote com fé. Use a razão”. A frase é acompanhada do desenho de uma cédula de votação com a imagem de uma cruz, símbolo cristão, sobreposta por um círculo vermelho cortado, que significa “proibido” na lei de trânsito. Outro outdoor exibe “Ateus, somos 2 milhões de eleitores”. A campanha também questiona a presença de símbolos cristãos em prédios públicos, como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. “Sua religião não é nossa lei”, diz outra placa. Todos os cartazes exibem o nome da Atea.

A campanha surge após os principais candidatos a presidente - Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB) - terem iniciado uma série de visitas a líderes religiosos. Os três já se reuniram com o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Raymundo Damasceno. Dilma também esteve com o bispo Edir Macedo, na inauguração do Templo de Salomão, sede da Igreja Universal do Reino de Deus em São Paulo.

Aécio esteve com o pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Marina, que é fiel da Assembleia de Deus, levou Eduardo Campos, que morreu num acidente aéreo no dia 13 de agosto e de quem era candidata a vice, para um encontro com pastores em São Paulo.

“A laicidade do Estado vem se deteriorando”, diz o presidente da Atea, Daniel Sottomaior. Ele afirma que, entre os cerca de 13 mil associados, há eleitores dos três concorrentes. Mesmo assim, critica o “périplo” dos candidatos pedindo apoio de religiosos. “Apoio não é de graça. Eles estão apoiando, esperando retorno, com doações ou financiamento de eventos religiosos.” Outra retribuição, diz, é no apoio a projetos da bancada evangélica, como os que envolvem temas como aborto e direitos gays.

O presidente da Atea diz não orientar o voto de seus associados, mas afirma que a candidata do PSB “deu um passo a mais” do que Dilma e Aécio no sentido de confundir Estado com religião. Segundo ele, o comportamento da petista e do tucano não foge do usual. “Beijam a mão de todos os cardeais.” Marina, no entanto, se destaca porque “é difícil saber qual é a linha dela”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

FonteIsto é. Com a colaboração de Marcelo Figueiredo

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